Sunday, October 25, 2009

A “paradinha” na cobrança de pênaltis

O presidente da Fifa fala em proibir a “paradinha” na cobrança de pênaltis. Ideia ridícula e sem qualquer base lógica. Se o jogador não pode usar a “paradinha”, então, por que ao cobrar falta fora da área o time pode usar de artimanhas como as jogadas ensaiadas em que um jogador finge cobrar, salta a bola, e outro chuta? É exatamente a mesma situação: uma simulação com o objetivo de iludir o adversário. Que, afinal, foi quem fez a falta e recebeu a devida punição. Proibir a “paradinha” (ou, na mesma lógica, as simulações nas cobranças de falta) é beneficiar o infrator.

Na verdade, a “paradinha” acabará no dia em que os goleiros começarem a se portar adequadamente. Explico: do ponto de vista da Física, o pênalti é indefensável. Se forem considerados os fatores em jogo – tamanho do gol, envergadura do goleiro, velocidade e direção da bola no chute do cobrador –, basta que o cobrador chute corretamente que não há possibilidade física de o goleiro defender. O pênalti cobrado com perfeição é aquele em que a bola toca a parte lateral da rede, por dentro – quando a bola vai com rapidez e força, bem perto da trave. Não há possibilidade física de o goleiro, saindo do centro do gol, pegar a bola quando o pênalti é bem cobrado – e digo isso baseado em cálculos feitos por um professor de Física que certa vez publicou um artigo sobre o tema. É por isso que os goleiros não esperam pelo chute, mas se antecipam a ele, escolhendo um canto e pulando antes que a bola seja lançada para aumentarem a possibilidade de alcançá-la.

Aí é que está o grande erro dos goleiros. São raros os jogadores que cobram o pênalti com perfeição. A grande maioria chuta mais perto do centro do gol do que deveriam, e com menos força. Por isso, os goleiros teriam muito mais chance de defender se ficassem imóveis no centro do gol, olhando fixamente para a bola e saltando para pegá-la apenas depois do chute. Na adolescência, fui um ótimo goleiro e defendi muitos pênaltis, para espanto dos adversários, porque fazia exatamente isso. A possibilidade de um chute perfeito do cobrador é muito menor do que a possibilidade de o goleiro acertar na previsão do destino da bola.

No dia em que os goleiros começarem a fazer isso, as “paradinhas” acabarão. Lembro-me de um jogo do Atlético Paranaense em que o atacante Rafael Moura foi cobrar um pênalti, ameaçou chutar, esperando o pulo do goleiro, mas este não se moveu. Fez então uma segunda ameaça, o goleiro pulou, e ele rolou a bola vagarosamente em direção ao canto oposto. Foi a única cobrança de pênalti com duas “paradinhas” de que tive notícia. Se o goleiro tivesse se mantido firme na sua atitude de esperar o chute, a cobrança seria um fiasco.

Friday, October 23, 2009

Lembranças...

Esta foi para mim a semana da nostalgia, das lembranças profundas... Três fatos:

1) Passei algumas vezes pela rua onde fica o terreno da “minha Branca de Neve”. Virou um prosaico estacionamento. Sempre que vejo aquele espaço vazio, sinto uma tristezinha nostálgica, aquela sensação de saudade de um mundo que se foi, de coisas que não existem mais...

2) Uma velha e grande casa onde morei por alguns anos está sendo demolida – na Rua Padre Agostinho, 274. Estava para alugar e, de repente, começou a ser posta abaixo. Apesar de fazer parte de um passado que me traz sensações totalmente contraditórias, tive um choque quando a vi despedaçada. Senti como se um pedaço da minha história estivesse sendo apagado. Passo diariamente diante dela e nunca deixei, um dia sequer, de desviar o olhar em sua direção. Ela estava lá, sempre, permanentemente de pé, como eu, minha vida, minha história.
Vieram-me lembranças... Foi-se a cozinha onde fiz pela primeira vez a carne assada ao molho de cerveja recheada com bacon, que ainda hoje faz sucesso quando repito a façanha culinária. Não existe mais o quarto onde eu demorava a dormir, ouvindo “Porto solidão” enquanto sonhava com uma vida diferente, temendo antecipadamente pelas incógnitas que ela me traria. Desapareceu a sala de paredes vermelhas onde eu me aquecia em frente à lareira, em longas horas de conversas noturnas animadas por um Benédictine ou um Chartreux. Um tapume substitui o muro que eu pulava à noite para ir encontrar, escondido, minha namorada (hoje esposa). E na derrubada daquelas paredes que me traziam tantas recordações, parece que eu vou também enfraquecendo.
“E eu era feliz? Não sei;/Fui-o outrora agora” (Fernando Pessoa).

3) Ao final de uma aula, sem pensar nem procurar palavras, despedi-me de uma aluna com uma expressão típica de meu falecido pai. Assim, sem mais... Imediatamente, tomou-me um sentimento profundo, profundíssimo de saudade extrema, a ponte de ser-me preciso segurar as lágrimas. Calei-me por alguns instantes, porque a voz não sairia. Nesses segundos densamente eternos, vieram-me em turbilhão lembranças impregnadas de doída saudade das duas pessoas falecidas cuja falta mais sinto: meu pai e meu irmão. Senti a dor pesada do fato sem solução, da situação perpetuamente resolvida, sem volta. A perda daquilo que tive pouco e devia ter tido mais...

Enfim, lembranças... O que é o passado que já se foi? Que temos a ver com o passado? Anos atrás, pensando nisso, fiz o poema que segue – e conclui esta mensagem.

SOMAMOS
Não somos mais
o que fomos,
mas somos só
o que fomos
(passado – matéria-prima indelével –
não desgruda de nós).
Somos mais:
somamos.

Thursday, October 22, 2009

Homenagem a Renato Bzuneck Jardim

Em 2004, eu era professor de Editoração no curso de Jornalismo da Universidade Positivo quando recebemos o aluno Renato Bzuneck Jardim. Renato era deficiente visual – creio que tinha no máximo 10% da capacidade visual normal. Editoração é uma disciplina eminentemente prática e... visual, cujas aulas são ministradas no laboratório de informática do curso. Os alunos aprendem noções de planejamento gráfico e diagramação de veículos jornalísticos impressos. Nas aulas práticas, aprendem a utilizar programas de editoração eletrônica.

O sistema de avaliação adotado naquele ano contemplava testes teóricos e práticos. No primeiro bimestre, a avaliação era divida em 80% teórica e 20% prática, enquanto nos três outros bimestres a divisão era de 50% para cada tipo de prova. No início das aulas, expliquei ao Renato que ele teria todo apoio, mas nenhum privilégio. Disse-lhe que deveria compensar a impossibilidade de fazer os exercícios práticos com boas notas na parte teórica, explicando-lhe que, se tivesse sucesso, iria para a prova final e poderia ser aprovado mesmo que tivesse nota zero nos exercícios práticos (no exame final, também havia avaliação prática, valendo metade da nota).

O fato é que Renato conseguiu nota suficiente para ir a exame final sem nunca ter feito os exercícios práticos (nos quais recebia sempre nota zero). No exame final, também garantiu aprovação apenas com a parte teórica. Sempre apliquei, obviamente, as mesmas provas da turma, mas em consulta oral: eu lia as perguntas, e ele ditava as respostas.

Em algumas provas das quais constavam perguntas teóricas baseadas em figuras, reproduzi as figuras em tamanho bastante grande (para isso, o próprio Renato carregava sempre um “pincel atômico”), que ele conseguia ver aproximando o papel até quase encostá-lo no olho, num processo muito cansativo, mas a que ele se submetia sempre que necessário.

Renato evoluiu bastante ao longo do curso. Depois do primeiro ano, embora não lhe tenha dado mais aula, percebi que ele tornou-se bem mais “desembaraçado” e ativo. Ele sempre pareceu bastante integrado junto aos colegas. É de se ressaltar que ele jamais usou a deficiência visual como pretexto para pedir qualquer atitude condescendente do professor. Pelo contrário, sempre fez questão de afirmar-se como estudante capaz de fazer o necessário para aprender e ser aprovado, independentemente de sua deficiência, o que me parecia o lado mais admirável de sua atitude diante do mundo. Longe de usar a deficiência como “muleta”, ele superava todas as dificuldades com esforço e dedicação, além de contar com sua boa capacidade intelectual.

Uma das melhores recompensas de ser professor é aprender continuamente, já que temos dezenas de alunos que são também nossos “professores”, sempre com coisas novas para nos ensinar. Para mim, ser professor do Renato acrescentou muito. Foi uma oportunidade de aprender sobre temas como a infinita capacidade humana, o respeito às diferenças, a riqueza do ser humano. Renato deu-me muito mais do que de mim recebeu.

Soube com muita tristeza do falecimento recente do já então colega Renato. Apesar de sua passagem curta entre nós, estou certo de que, se as pessoas têm uma missão a cumprir na Terra (este “vale de lágrimas”, diz a oração católica), Renato deve ter cumprido a sua, e muito bem cumprida.

Wednesday, October 21, 2009

Títulos curiosos

Diversão garantida na leitura de jornal. Vejam só que títulos curiosos. Quem quiser decifrá-los clique sobre eles.

“Suínos boicotam feira para não pegar gripe”
Coitados, acho que eles têm razão. Nestes temos de gripe mortal, eles precisam se prevenir.

“Brasil estuda financiar exportações de vizinhos”
Oba! Achou que vou procurar esse financiamento. Tenho alguns vizinhos que gostaria muito de exportar para bem longe!

“Maranhão assume a Paraíba”
Que bom, nesta época de separatismos, ver dois estados irmãos unindo-se, mesmo não tendo fronteiras comuns. Mas será que o povo paraibano foi consultado?

Tuesday, October 20, 2009

Títulos inadequados

Os manuais de redação e a prática jornalística indicam que um título de matéria factual deve ser uma frase com sujeito, verbo (no presente, sempre que possível) e complemento que indique o assunto principal do texto. Portanto, deve ser não apenas facilmente inteligível, mas revelar do que a matéria trata, para que o leitor possa decidir-se a lê-la ou não. Pressupõe-se que, em geral, o leitor não leia o jornal “de cabo a rabo”, mas selecione – principalmente pelo título – quais os textos de seu interesse. Por isso, o título é uma espécie de “propaganda” da matéria. Títulos ininteligíveis tendem a fazer com que o leitor não se interesse pelo texto. Entretanto, eles são frequentadores habituais das páginas dos jornais. Seguem dois exemplos...

IPOS atraem US$ 17 bilhões
Provavelmente, o jornalista pensa que o público habitual do caderno de Economia seja capaz de decifrar o título. Mas... quem é o público habitual do caderno? Eu leio as matérias de Economia e gostaria de entendê-las – afinal, faço parte do público leitor do jornal. Li a nota para tentar decifrar o título, mas não há nada no texto que indique o que significa a sigla IPOs.

Maior VBP do estado em destaque na Expotoledo
VBP? O que será que é isso? Quem consegue dizer sem ler a matéria?

Monday, October 19, 2009

As diferenças que as vírgulas fazem

Todo mundo sabe que colocar vírgulas erradamente pode mudar o sentido da frase. Portanto, os jornalistas devem tomar muito cuidado com elas. Matéria da Gazeta do Povo sobre o Vale-Cultura traz duas frases com vírgulas colocadas indevidamente. Vejamos:

“A meta do MinC, com a implementação do Vale Cultura, é que os brasileiros, de baixa renda, passem a consumir cultura.”

Com certeza, o autor queria dizer: “... que os brasileiros de baixa renda passem a consumir ...”

Do modo como está, a frase afirma que todos os brasileiros são de baixa renda – e, portanto, o MinC quer, com o vale, que os brasileiros passem a consumir cultura (visto que todos os brasileiros têm baixa renda).

Sem as vírgulas, a frase indicaria que, dentre os brasileiros, há alguns de baixa renda, que o MinC deseja que consumam cultura.

A outra:

“O trabalhador, que ganha até cinco salários mínimos, pode optar por não ser beneficiado pelo Vale Cultura” [...].

De novo: com certeza, o jornalista queria dizer que “o trabalhador que ganha até cinco salários mínimos pode optar ...”.

As orações analisadas podem ser explicativas (caso das que estão entre vírgulas nos exemplos) ou restritivas (sem as vírgulas). Para determinar, portanto, uma categoria específica (restrita) de brasileiros (os de baixa renda) ou de trabalhadores (os que ganham até cinco salários mínimos), o texto deveria usar a oração restritiva, sem vírgulas.

Sunday, October 18, 2009

Título versus texto e muro "tucanado"

Uma curiosa matéria da Gazeta do Povo traz duas “pérolas” de naturezas diferentes.

Primeiro, um título que diz o contrário do texto. Depois, as incríveis definições ministeriais sobre o que seja um muro.

O título: “Ministro da Justiça critica muro em favela carioca”.

Na verdade, o ministro da Justiça, Tarso Genro, estava defendendo a construção do muro que separa o morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, da mata vizinha, para evitar que os barracos a invadam.

Além do título que contradiz o texto, o mais engraçado é o discurso de Genro, em sua tentativa de defender a obra alegando que o muro não é um muro. José Simão diria que o ministro “tucanou” o muro.

As palavras do ministro: “Pelo que estou informado, não são mais muros, né? São divisões que vão ter espaço delimitador. Mas não se adotou aquela tese de fazer um muro de separação física, alto, que separa a comunidade do outro espaço.”

Então , quando “não se adota aquela tese”, o muro deixa de ser muro... Isso é que é “teoricismo” acadêmico!

Monday, September 28, 2009

Livros

De passagem por aqui, quero recomendar os cinco melhores livros dentre os que li neste ano (cerca de 25). Estão na ordem em que os li e não em ordem de preferência. Lá vai:

1) “O filho eterno”, de Cristóvão Tezza. Muito bom mesmo, merecedor de todos os inúmeros prêmios que ganhou. Tezza está hoje entre os principais escritores brasileiros. Seu texto é absolutamente impecável - e saboroso. E neste livro conta a melhor de suas histórias.

2) “Olhe nos meus olhos”, de John Elder Robison. História de um portador da Síndrome de Asperger (espécie de autismo leve), contada pelo próprio. Obra sem pretensões literárias, mas muito interessante e até divertida. Ajuda o leitor a colocar-se no lugar do “outro”, refletir sobre as diferenças e entendê-las.

3) “A viagem do elefante”, de José Saramago. Tem a maestria do Saramago, sempre bom de ler.

4) “A distância entre nós”, de Thrity Umrigar. A escritora de origem indiana (participante da Bienal do Livro do Rio deste ano) tem um texto atraente. Nesta obra, conta a história da relação entre uma empregada e sua patroa na sociedade indiana. Leitura ainda mais interessante para quem acompanhou “Caminho das Índias”.

5) “A menina que roubava livros”, de Marcus Zusak. Excelente tradução de um texto de qualidade maravilhosa para uma história comovente.

Sunday, September 20, 2009

Foto "sem-vergonha"

A foto de um evento esportivo pode assumir ares de jornalismo sensacionalista. Uma foto de Michael Fiala (Agência Reuters) retratando duas tenistas que se cumprimentam após uma partida tem esse ar: a foto foi tirada de modo tal que insinua mais do que diz. Veja a foto inteira clicando aqui.


Quero deixar claro que não teria nada contra o fato de as tenistas serem lésbicas e estarem ensaiando um beijo. Nem me escandalizaria com tal foto. Mas é que não é este o caso aqui: a foto quer insinuar algo que não é a realidade, daí o sensacionalismo.

Tuesday, August 11, 2009

Homossexualidade e união civil

Na discussão sobre o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo do ponto de vista constitucional, há juristas de peso em ambos os lados. A Gazeta do Povo, principal diário de Curitiba-PR, publicou em 11/08 artigo do professor Ives Gandra Martins no qual ele defende que, por força constitucional, só pode ser considerada família “aquela decorrente ou do casamento ou da união estável entre um homem e uma mulher”. Sob o enfoque jurídico, sua posição é bem fundamentada, mas pode ser contestada, e efetivamente tem sido, pois se trata de uma discussão bastante complexa.

Entretanto, há no artigo do ilustre jurista afirmações descabidas quando ele foge da discussão estritamente jurídica. Afirma ele que “a criança deve ser educada segundo a ‘opção natural’, de atração entre pessoas de sexo diferente, uma vez que a denominada ‘opção sexual’ dos homossexuais só ocorre na adolescência ou quando adultos”. Tal ideia é hoje completamente descartada pelos especialistas que estudam a homossexualidade. Em primeiro lugar, porque não existe uma “opção”. Ninguém é homossexual porque escolhe ser. Para que isso fique claro, basta que um heterossexual se pergunte quando fez a “opção” por ser heterossexual – obviamente, essa opção nunca foi feita, pois não se trata de uma questão de escolha.

Estatisticamente falando, cerca de 10% das pessoas são homossexuais: trata-se de uma constatação prática, para além de ideologias e preconceitos. As “opções” do homossexual são aceitar ou não sua sexualidade (muitos não a aceitam por causa do preconceito social) e assumi-la ou não perante a sociedade (como se costuma dizer popularmente: “sair do armário” ou não). Essas sim, opções exercidas na adolescência ou na idade adulta.

Portanto, também não se pode dizer que a heterossexualidade seja “natural” e a homossexualidade, “antinatural”: a homossexualidade está presente na natureza – e, entre os seres humanos, atinge aproximadamente 10% das pessoas.

Espanta encontrar na argumentação de Ives Gandra Martins a alegação de que a adoção de crianças por homossexuais “levaria a ser imposto à criança um tipo de comportamento que a tiraria do caminho seguido pela esmagadora maioria das pessoas, de atração pelo sexo oposto”. Também esse argumento está fundado numa ideia completamente equivocada sobre supostas origens da homossexualidade. Filhos de homossexuais não são necessariamente homossexuais, assim como muitíssimos homossexuais são filhos de casais heterossexuais. Ser educado por homossexuais ou por heterossexuais não é fator determinante da sexualidade do indivíduo – caso contrário, nunca se veria um homossexual filho de um casal heterossexual e por ele educado.

Ademais, o célebre jurista ignora o direito das minorias. Por que aqueles que não têm o comportamento “da esmagadora maioria” não podem ser sujeitos de direitos? E por que um cidadão não pode legitimamente ter um comportamento diferente daquele da maioria?

No âmbito jurídico, há muito que se discutir sobre o reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo, o que provavelmente só será resolvido perfeitamente com uma mudança na legislação – seja por força de uma emenda constitucional ou de um pronunciamento jurisprudencial. Já no âmbito social, é fácil perceber que a discussão é eivada de equívocos e, quase sempre, de preconceitos.

Tuesday, August 04, 2009

“Jornalismo” (?) esportivo

Tenho uma opinião particular sobre o jornalismo esportivo feito hoje no Brasil: é muito pouco de jornalismo e quase tudo de entretenimento. Jornalismo é novidade – máxima que parece não valer no “jornalismo” esportivo.

Em Curitiba, o programa esportivo de maior audiência no rádio apresenta-se como jornalístico, mas é muito mais um humorístico. No time que faz o programa já apareceu de tudo: um office-boy, um mendigo, um ET, um mosquito e até o fantasma do Michael Jackson. As transmissões de jogos na emissora são divertidas, tão divertidas que às vezes o narrador e seu séquito de personagens se esquecem do jogo...

Outra rádio de grande audiência, com aparência muito mais séria, tem dois horários dedicados a programas esportivos locais. Que quase nunca apresentam nada, mas nada mesmo de novo. Só aquele blá-blá-blá de opiniões sobre o jogo que passou ou sobre aquele que virá. Um jornalista informa, relata fatos. Já nesses programas, os radialistas (não vou chamá-los de jornalistas, porque não o são) usam muito o “eu acho”, “me parece que”... e muito frequentemente não sabem passar informações básicas para o ouvinte.

Nessa pobreza informativa, um repórter (ex-jogador que virou profissional do rádio) chegou a anunciar como notícia de “primeiríssima mão” a informação de que o Atlético Paranaense contrataria o auxiliar técnico Leandro Niehues (que estava no Corinthians-PR). Uma rádio concorrente já tinha dado a notícia na véspera... O mesmo repórter, falando ao vivo, inventou dois novos participantes do Campeonato Brasileiro: anunciou que o Coritiba jogaria “contra o Cascavel” (o jogo, na verdade, seria contra o Santos, na cidade de Cascavel, pois o Coritiba perdera o mando do jogo) e trocou o Paraná Clube pelo Paranavaí.

Fazer jornalismo é difícil. Fazer bom jornalismo, mais ainda. Fazer bom jornalismo ao vivo, então, é tarefa árdua, que deveria ser deixada para jornalistas de verdade. Talvez (eu disse “talvez”) a pobreza do jornalismo esportivo se deva a ele não ser feito majoritariamente por jornalistas, mas por “radialistas”. Não quero insinuar com isso que não haja ótimos radialistas, longe disso. Há, inclusive no jornalismo esportivo, mas são exceção.

Adiamento das aulas é “disparate”

Na linha do que comentei aqui e defendi em artigo publicado na Gazeta do Povo, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, classificou o adiamento do reinício das aulas de “disparate”. Veja trecho da notícia publicada na Folha Online:

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, disse ontem (3) considerar um “disparate” alunos sadios terem o início das aulas adiado por conta da gripe suína. Segundo ele, a recomendação do ministério é que devem ficar em casa apenas as crianças e funcionários com sintomas como febre e tosse. “Quem não tem sintoma não tem que ficar em casa. Seria um disparate total”, disse ontem em evento no Rio. Os governos de São Paulo, Rio, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas prorrogaram as férias escolares.

Tuesday, July 28, 2009

O caos da gripe

Durante a epidemia de influenza que grassou no país em 1918, as autoridades municipais de Curitiba determinaram o fechamento de todas as casas de espetáculos e proibiram aglomerações, inclusive o acompanhamento dos enterros.

Agora, no século 21, nossas “autoridades” estão permitindo a desinformação e o caos. Enquanto diversas escolas particulares adiaram o início das aulas do segundo semestre, e a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo determinou a volta às aulas apenas no dia 17 de agosto, o secretário de Saúde do Paraná criticou as instituições curitibanas pela atitude “precipitada”, e várias vozes classificaram o adiamento de inútil e inócuo. Ora, se nem as autoridades da saúde se entendem, como o cidadão pode ter uma orientação segura?

Em Curitiba, foram confirmadas, até hoje, três mortes causadas pela gripe A, todas de homens adultos. Apesar disso, enquanto escolas de ensino fundamental e médio suspenderam a volta às aulas, as faculdades estão funcionando normalmente. E os cinemas estão superlotados com crianças aproveitando as “férias prolongadas”! Uma total incoerência!

Os órgãos públicos continuam funcionando, inclusive com enormes aglomerações de pessoas que ficam horas aguardando atendimento em ambientes fechados - por exemplo, cerca de uma centena de pessoas que se reunem diariamente nos Juizados Especiais de Curitiba, num saguão sem janelas!

É incrível e inaceitável a passividade e a falta de unidade que atinge as autoridades de saúde no país. Sempre acreditei que o fim da humanidade será o extermínio por uma epidemia, e a atual é uma boa amostra. Basta imaginar um vírus de alta letalidade espalhando-se com a facilidade dessa gripe...

Friday, July 24, 2009

Mídia divertida

“Descendência” japonesa...

Dias atrás, vi no jornal notícia sobre uma jornalista americana de origem iraniana chamada Roxana Saberi. A matéria dizia que a jornalista tinha “descendência japonesa”. Por que será que tantas pessoas fazem essa confusão com um termo tão simples?

Eu posso dizer que tenho descendência italiana, pois meu filho, assim como eu, tem dupla nacionalidade (brasileira e italiana). E tenho também ASCENDÊNCIA italiana, já que, assim como meu descendente (meu filho), meus ascendentes também são italianos, afinal, meu bisavô Pascoal Papa nasceu na Itália, de pais italianos.

Quando algum aluno me diz que tem “descendência” de tal nacionalidade, respondo brincando, fingindo espanto: “Nossa! Tão novinho e já tem filho! Você é casado?” Invariavelmente, a pessoa, é claro, não entende...

“Volta com tudo”

A Gazeta do Povo pubica hoje matéria sobre o clima com o título: “Frio volta com tudo no final de semana”. Curioso. Primeiro: “volta com tudo” parece coloquial demais para a linha editorial do jornal. Segundo: considerando que nos últimos dias tem feito um frio terrível, ainda mais com chuva (a máxima hoje não deverá passar dos 15º C), esperava que a matéria noticiasse que o frio iria voltar para o seu lugar de origem, bem longe de Curitiba, talvez na Argentina... Mas na realidade a notícia era que a temperatura diminuiria ainda mais no final de semana. Parece “a volta dos que não foram”...

Wednesday, July 15, 2009

McNamara e a “arte” da guerra

O ex-secretário de Defesa dos EUA Robert Macnamara, responsável pela ação estadunidense na Guerra do Vietnã, morreu na semana passada. Em diversas manifestações públicas, havia se declarado arrependido em relação à participação dos EUA na guerra. De tudo que disse, há algo que impressiona bastante. Ele afirmou que, no final da guerra, tinha duvidava da eficácia do bombardeio ao Vietnã do Norte. Mesmo assim, ordenou o bombardeio que fez milhares de vítimas. Sua justificativa para ter prosseguido com a ideia do bombardeio, mesmo não acreditando na sua utilidade para a vitória estadunindense: "Tínhamos que provar que não daria certo [...] porque outras pessoas pensavam que poderia funcionar". Então, para provar que não daria certo, mandou fazer. Mandou matar milhares de pessoas para mostrar a inutilidade do bombardeio. Assim é a “arte” da guerra...

Tuesday, July 14, 2009

Afinal, diploma para quê?

O convívio social num país democrático é regulado pelo arcabouço jurídico desse país. E ele precisa ser coerente. No caso do exercício profissional, a legislação construída ao longo do tempo no Brasil impõe regras para que as pessoas possam exercer certas profissões. Isso é, obviamente, uma restrição de liberdade. Como, aliás, toda lei é. Alguém poderia desejar correr a qualquer velocidade no seu carro, passar qualquer cruzamento como bem entendesse. Mas há leis que restringem essa liberdade em benefício da sociedade. Viver em sociedade (contingência humana) implica renúncia a parcelas de liberdade.

Imaginemos um panorama de total liberdade profissional, com qualquer pessoa podendo exercer o ofício que desejasse. Suponhamos que alguém colocasse na sua porta uma placa: “Advogado”. E começasse a atender clientes. Poderia sair-se muito bem e seria recomendado a outras pessoas por seus clientes. Ou poderia acontecer o contrário. Isso seria a regulação pelo mercado. Quem fosse prejudicado pelos maus serviços de um profissional poderia acionar a Justiça para ser indenizado. Mas se o cidadão hipotético resolvesse exercer a Medicina e matasse alguém, o prejuízo não poderia ser indenizado...

Como criar um sistema de proteção social que ateste a capacidade de determinada pessoa para exercer certa atividade profissional? Na Idade Média, isso era feito pelas corporações de ofício. Por exemplo: um sapateiro de qualidade reconhecida poderia receber aprendizes, aos quais ele ensinaria seu trabalho, e, conforme o progresso do aprendiz, este poderia ir assumindo algumas tarefas e receberia “títulos” para atestar seu nível profissional: meio-oficial, oficial e, por fim, mestre (sistema que persiste, por exemplo, na construção civil brasileira nas funções de base).

Com o surgimento das universidades e, depois, dos estados democráticos, a certificação passou a ser feita pelas instituições de ensino – como acontece no Brasil. Em princípio, é um sistema bem ponderado: as instituições de ensino precisam de autorização e reconhecimento do Poder Público, que as fiscaliza. Assim, teoricamente, há segurança para a sociedade: quem cumpre de modo adequado suas funções de aprendiz recebe um certificado (diploma) atestando que está apto a exercer determinada profissão, e esse certificado só pode ser emitido por instituição credenciada e fiscalizada pelo Poder Público. Tudo muito bem pensado (ao menos na teoria) e feito de modo a garantir segurança ao cidadão, que certamente se sente mais tranquilo ao ser atendido, por exemplo, por um médico que tenha um diploma reconhecido “oficialmente”.

Por que, então, para o exercício de determinadas profissões é exigido o diploma superior e para outras não? Trata-se de uma questão de legislação construída pela força maior ou menor de determinados grupos profissionais, pela tradição maior ou menor de determinadas carreiras. Ninguém pode ser corretor de imóveis ou massoterapeuta sem o devido registro profissional (nesses casos, conseguido após a obtenção de certificados em cursos técnicos). Isso se deve, basicamente, à capacidade de articulação dos envolvidos nesses ofícios, que conseguiram criar democraticamente legislação específica para os seus casos. Corretores de imóveis e administradores têm Conselhos Federais que regulam e fiscalizam o exercício profissional. Músicos e advogados têm suas Ordens profissionais para os mesmos efeitos.

A existência ou não de Conselho ou Ordem de determinada profissão, assim como a exigência ou não de diploma de nível superior para exercício profissional, pouco tem a ver com a suposta importância social dessas profissões. Está relacionada, muito mais, ao poder de articulação e à representatividade de cada categoria.

Nesse sentido, o fim da exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão quase nada tem a ver com a possível importância social da profissão, ou com a liberdade de expressão do pensamento, ou com a determinação constitucional de que o exercício profissional é livre para todo cidadão. Também não está relacionada ao avanço das tecnologias da comunicação, à proliferação dos blogs ou qualquer coisa do gênero.

Lutar pela exigência do diploma é uma atitude legítima da classe dos jornalistas, dentro das regras da democracia e do arcabouço jurídico-legislativo brasileiro. Não tem nada de obscurantista ou policialesco. E há muitas pessoas, muitas mesmo (e entre elas me incluo) que acreditam que, dadas as atuais regras legais, a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é adequada, útil e proveitosa não só para os jornalistas, mas para toda a sociedade.

Pensar utopicamente num mundo de maior liberdade para todas as profissões também é aspiração legítima. Que seria do mundo sem os utópicos? Nesse panorama utópico, seria muito bom que não se exigisse diploma superior para qualquer exercício profissional, do médico ao sapateiro. Mas, para isso, e tendo em vista os interesses da sociedade, deveria haver algum sistema que atestasse a capacidade profissional – em alguns casos (como o do sapateiro), o mercado mesmo, em outros, um sistema ainda a ser pensado, talvez um exame aprofundado feito por instituições credenciadas pelo Poder Público. No entanto, eliminar a exigência apenas para os jornalistas é ilógico dentro do nosso arcabouço jurídico.

Por fim – e independentemente de qualquer exigência deste ou daquele diploma para o exercício desta ou daquela profissão –, lutar por uma melhor qualidade do ensino em todos os níveis, e não só no universitário, deveria ser dever de todos. Quando um determinado candidato às últimas eleições presidenciais dizia que a solução para o país só podia estar baseada no tripé: “Educação – Educação – Educação”, muitos o ridicularizaram, vários chamavam seu discurso de “samba de uma nota só”. Pois eu acredito nesse samba.

[Publicado no Observatório da Imprensa em 14/07/2009]

Wednesday, June 24, 2009

Assim é o capitalismo...

Triste, muito triste a constatação do óbvio a partir de uma matéria publicada hoje na internet: “Socorro a bancos em 1 ano supera ajuda a países pobres em 50, diz ONU”. Assim é o capitalismo. O capitalismo precisa da miséria. Uma vez que a riqueza do planeta é limitada, para que uns tenham muito, é preciso que outros tenham nada. Tinha razão, nesse aspecto, o velho Marx: a riqueza de uns é necessariamente a miséria de outros. Já ouvi várias vezes, inclusive em palestras de especialistas, que seriam necessários quatro planetas Terra para atender as necessidades da população mundial se todos tivessem o padrão de consumo de um estadunidense médio. Portanto, aqueles que têm poder e dinheiro precisam manter a miséria para que lhes caiba cada vez mais dinheiro e poder.

“Equilíbrio” no avião

Vi hoje uma matéria curiosa na internet: “Passageiros abandonam avião após piloto pedir que servissem de contrapeso ”. Já passei por isso! Numa conexão em Porto Rico, embarquei num pequeno avião turbo-hélice. Como havia poucos passageiros (uns 15, mais ou menos), a comissária pediu que equilibrássemos o avião nos dividindo entre os bancos da esquerda e da direita do corredor. Depois do estranhamento inicial, percebi que era um procedimento normal, corriqueiro e, afinal de contas, óbvio! Logo nos distribuímos equilibradamente nos assentos e o voo seguiu sem problemas.

Monday, June 22, 2009

“Pérolas”

Todos sabem que a qualidade de ensino no Brasil deixa a desejar... Com o “fim”, na prática, do vestibular, já que na grande maioria dos cursos há mais oferta de vagas do que demanda, não há mais seleção para a entrada no ensino superior. Com isso, a qualidade média dos alunos diminuiu, deixando evidentes suas deficiências.

Convém deixar claro que acho ótimo o fim do vestibular. O acesso ao ensino superior deveria ser direito garantido a todos os cidadãos que concluíssem o Ensino Médio e desejassem prosseguir os estudos no nível superior. Mas que a qualidade do ensino precisa melhorar, em todos os níveis, também não há dúvida.

Deploro ainda, por outro lado, a atitude de muitos professores que sempre colocam a “culpa” das deficiências do ensino no nível anterior àquele no qual lecionam. O professor universitário diz que os alunos são ruins porque o Ensino Médio é deficiente. Os professores do Ensino Médio colocam a culpa no Ensino Fundamental, e assim por diante (até chegar ao ventre materno...) – como se não fosse responsabilidade de cada um ensinar o que deve ser ensinado no seu respectivo nível.

Se um aluno chega com deficiências na universidade, não adianta ficar se lamentando – é preciso suprir essas deficiências ensinando. Se forem deficiências insuperáveis para uma determinada carreira, o estudante deve ser orientado para procurar aquela que lhe for mais conveniente.

Enfim, postas essas considerações iniciais, que têm o intuito de evitar a impressão de que estou “tripudiando” sobre “maus alunos”, coloco a seguir algumas das chamadas “pérolas” que colhi em provas e exercícios de redação jornalística. Estas que apresento aqui são antigas, mas engraçadas. Quem lê pode rir e achar divertido. Ao professor, cabe, depois do impulso incial de rir, buscar soluções e trabalhar com os alunos para que melhorem. É a nossa dura missão, cuja realização tem como maior recompensa constatar que muitos alunos conseguem efetivamente melhorar.

“PÉROLAS”

De textos sobre a guerra no Iraque:
• ... os Estados Unidos estão destruindo vidas ingênuas e futuras que foram construídas durante anos, por um único objetivo: o ego.
• Acredito que a guerra no Iraque é o fim da paz mundial. Pois os países envolvidos lutam pela paz. Logo não haverá paz onde há guerra com o sangue derramado.
• Se a guerra continuar resultará na destruturalização da sociedade mundial.
• Os veículos americanos que mostram a notícia sob aspecto geral são punidos por Bush.
•... o que importa para o governo americano é o petróleo dos iraquianos passando por cima de tudo e de todos.

Sobre a objetividade da notícia (a partir da leitura do livro de Luiz Amaral)
•... por mais que ambas tentam ser neutras, não conseguem. Ambas são neutras.
• Pelo título de realista a objetividade e a subjetividade caminham juntas.
• A reflexão sobre esses dois polêmicos temas e porque as matérias internacionais vem de forma curta, muito objetiva e sem maiores detalhes e a subjetividade entra nesse assunto com o interesse político e comercial do pais que vêm.
• Foram criadas as agências que, infelizmente, torna à informação em “um produto a venda”.
• A objetividade faz a notícia submissa, e não se dá a informação correta.
•... manipulação feita pelos países europeus, principalmente EUA, ...
• As indústrias colaborou para um aumento de tiragens, informações pouco aprofundadas, novas tecnologias e recrutamento de matérial humano adequado.

Sobre artigo e crônica:
• Artigo precisa ter começo, meio e fim.
• Artigo é um texto de caráter levemente tendencioso.
• Característica [da crônica] é o contexto rico de informações subjulgadas em um fato.

Outros:
• sático (satírico); tive-se (tivesse); sensasionalismo; inergúmenes (energúmenos); opnião; nescessidades; aterrozirar (aterrorizar); desnescessária; inoscentes; dia dia (dia-a-dia); em quanto (enquanto); Eu tenho gênero [gênio] forte.

Thursday, June 18, 2009

O fim da exigência de diploma para o exercício do jornalismo

O destino de dezenas de milhares de brasileiros portadores de diploma superior de Jornalismo foi afetado ontem (17/06) por um julgamento levado a cabo por ministros que pareciam não saber o que estavam julgando.

Julgava-se a obrigatoriedade ou não do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Mas muitas falas dos ministros indicavam que eles estavam analisando outro tema. Eles falavam do direito à livre expressão do pensamento, o que é outra coisa, completamente diferente.

Será que os ministros do STF acreditam mesmo que os proprietários de veículos de comunicação que defendiam o fim do diploma estavam interessados em defender a liberdade de expressão, como raposas que defendem a abertura das portas do galinheiro para o bem da liberdade das galinhas?

A exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista tem tanto a ver com o direito à livre expressão do pensamento quanto a exigência de Carteira Nacional de habilitação com o direito constitucional de ir e vir.

Pela lógica dos ministros do Supremo, qualquer cidadão poderia dirigir – caso contrário, estaria tolhido na sua liberdade de ir e vir. Pela mesma lógica, os cidadãos poderão prescindir do trabalho dos advogados, em qualquer circunstância, em nome do direito constitucional à ampla defesa.

Como se vê, parecem absurdos – assim como é absurdo relacionar a exigência do diploma com a limitação à livre expressão do pensamento.

Os distintos ministros do STF parecem ter uma ideia completamente romântica e ultrapassada do jornalismo, como se estivessem parados no século 19 ou no início do século 20. Demonstram acreditar que ser jornalista e trabalhar num veículo de comunicação significa expressar livremente o pensamento. Ou seja, eles não têm noção clara do que é o trabalho do jornalista. Parecem achar que o jornalista tem como função manifestar seu pensamento – o que todos nós, profissionais da notícia, sabemos que não pode ser feito pelo jornalista, a não ser em casos excepcionais ou muito específicos, como na redação de artigos e crônicas, gêneros, aliás, abertos a qualquer pessoa, com ou sem diploma.

O fim do diploma tem vários subsignificados muito tristes. Como a demonstração do possível despreparo do Judiciário para julgar uma matéria que exige um conhecimento aprofundado do tema tratado. Outros significados são a incapacidade da classe dos jornalistas de se articular com força contra os empresários da mídia e a facilidade imensa que têm o poder do capital contra a fraqueza dos trabalhadores nas instâncias de poder.

Esperemos agora as possíveis consequências do fato. A desvalorização da profissão. O achatamento dos salários. A ideologização cada vez maior das redações. O povoamento das redações com estagiários de vários cursos e com apaniguados do dono do negócio. Funcionários cada vez mais submissos aos condicionamentos da empresa. Enfim, tudo com que sempre sonharam muitos dos donos da mídia.